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Can’t think of happier 3 months in my life.

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Quem é Margot, pintora de Aquarelas?

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Por Walter Tabacniks As aquarelas de Margot, um exercício de resiliência Nascida em 1932 no bairro de Itaquera, filha de mãe luterana e pai católico (união sempre reprovada pela família [...]

Por Walter Tabacniks


As aquarelas de Margot,
um exercício de resiliência
Nascida em 1932 no bairro de Itaquera, filha de mãe luterana e pai católico (união sempre reprovada pela família paterna), aos cinco anos Margot teve que deixar o Brasil com seus pais e seu irmão de três anos, porque por recomendação médica, sua mãe com malária deveria habitar um lugar frio. Ignorando apelos de amigos e parentes, seu pai alemão decide levar toda a família à sua terra natal, Augsburgo, sul da Alemanha, em pleno inverno de 1937 e com a esposa grávida de Helga, que nasce logo após a chegada na Alemanha. Dois anos depois, Margot inicia sua vida escolar. Ao mesmo tempo começa a Segunda Guerra Mundial na Alemanha e – isto ela não sabe – seu futuro marido zarpou de Berlim há pouco com toda família, no último navio destino Brasil, evitando o envio a um campo de concentração.

Augsburgo não era alvo preferencial dos ataques das forças aliadas, situação que mudou drasticamente a partir de 1943. A cidade abrigava a indústria de aviões Messerschmitt. Assim, em fevereiro de 1944, a família de Margot sobrevive a uma semana de incêndios, resultado de um gigantesco bombardeio de quinze mil bombas lançadas por quase 2000 aviões americanos. Sem portas nem janelas e chamuscada pelo fogo, a casa de Margot foi uma das poucas que permaneceu de pé. Junto à multidão em fuga, a família recolhe roupas e bens essenciais.  Caminham entre brasas e escombros para o outro lado da cidade, onde o chefe do partido os aguardava. Seu pai era membro do Partido Nacional Socialista.

Os frequentes bombardeios pesam na decisão da família buscar refúgio em chácaras às margens da cidade, pertencentes a parentes. A mãe de Margot decide dividir a família: encaminha cada um dos filhos a diferentes lugares.  Graças ao bom desempenho escolar, Margot, já com onze anos, é convidada a ficar numa escola adaptada em um hotel nos Alpes. Por dois anos perde contato com a família. Apenas quando completa treze anos consegue uma licença especial por influência do partido, para visitar seus pais.

Regressa de trem, sozinha e sob intensos bombardeios. Ataques são constantes nestes últimos meses de guerra. Na estação de Augsburgo seu pai a espera. Outras pessoas não tiveram a mesma sorte. Naquele dia, Margot presencia a poucos metros da estação, uma mulher ser alvejada e cair morta sobre a neve. Retornam a casa de bicicleta, sob um frio de 20 graus abaixo de zero.

São dias caóticos, preenchidos por sirenes de ataque aéreo, amigos próximos sendo presos, outros mortos ou desaparecidos e o constante sair da cama quente para se esconder de pijama em abrigos gelados.  Certa vez uma bomba incendiária perfura a parede da casa, por sorte não explode. 6 meses mais tarde, Margot assiste ao nascimento do caçula logo ao final da guerra. E pela janela de seu quarto assiste à chegada dos americanos na cidade. É a alegria das crianças – pela distribuição de balas e chicletes e o temor das mulheres – contrastado aos frequentes fuzilamentos de nazistas nas ruas.

Nos próximos seis anos de reconstrução da Alemanha, Margot e sua irmã passam boa parte do dia escondidas no sótão, sem escada ou aquecimento, pois seu pai temia que americanos perversos as encontrassem em uma das frequentes revistas. Roupas costuradas pela mãe para os americanos pagam o documento de “desnazificação” do pai. Margot, da janela do sótão, assiste sua mãe desmaiar quando americanos destroem toda horta ao fundo da casa. Aos 18, jovem e questionadora, Margot convence a família a retornar ao Brasil.

Já em São Paulo opta por apagar o seu passado. Consegue trabalho de secretária em uma empresa de importação, onde conhece Gregor, recém contratado. Pouco depois, aos 19 anos, Margot já está casada e grávida. A polêmica desta união supera de longe a de seus pais: o casal muda-se para Pelotas, Rio Grande do Sul pois apenas a mãe de Margot e o pai de Gregor aceitam o casamento de uma filha de nazistas com um judeu. Para o restante da família o tempo fechou. A distância, cartas constantes e o nascimento dos filhos dissipam 4 anos de desavenças entre as famílias e no final de 1958, Margot e Gregor e seus dois filhos retornam a São Paulo. Todos convivem pacificamente. Serão dez anos como dona de casa quando decide voltar a trabalhar de secretária e iniciar aulas de pintura em cerâmica com uma professora chinesa.

Quarenta anos depois dessa primeira experiência artística, viúva e aposentada, retoma o prazer pela arte. Começa a frequentar o curso da UNAT – Universidade Aberta da Terceira Idade do Instituto Mackenzie de São Paulo, onde tem aulas de aquarela. Técnica preferida de Margot, expressa de forma sutil e suave a delicadeza feminina, totalmente paradoxal à sua história de vida.

Conheça alguns dos trabalhos de Margot clicando aqui.


Viste a exposição das Aquarelas de Margot no PLATIBANDA – Rua Mourato Coelho 1365, Vila Madalena.Abre diariamente a partir das 18h – sábados e domingo a partir das 12h. Fecha à 1h da manhã.A exposição vai até dia 21 de maio.

Conhecimentos da Maternidade

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Coisas que aprendi (descobri) com a maternidade: – dormir sentada com um bebê no colo (sem deixar o bebê cair)- preparar refeições em 6 minutos e comer em 5, usando [...]

Coisas que aprendi (descobri) com a maternidade:

- dormir sentada com um bebê no colo (sem deixar o bebê cair)
- preparar refeições em 6 minutos e comer em 5, usando apenas 1 mão (agora entendo o porquê do “desejo de grávida”)
- bebês só mamam a cada 3 horas e tiram sonecas de 2 no livro do Lamare
- eles podem chorar ao ouvir alguém tossir (ou se uma mulher gritar Ireeeeeeene bem alto no meio da rua)
- mas adoram dormir ao som do secador de cabelo, chuveiro, aspirador de pó…
- não dá para aprender músicas novas de violão nas horas vagas
- nem de teclado
- almoço com amigos na casa de um amigo é bem mais divertido e gostoso que em um restaurante
- bebês não bocejam ao ver alguém bocejando
- tudo pode acontecer
- seria muito prático comer ao mesmo tempo em que faço xixi/cocô (mas por questões de higiene não adotei esta prática)
- bebês não acordam tarde nos fins de semana e feriados
- subir/descer escada com o bebê no colo é ótimo para fazê-los pegar no sono (porém, péssimo para os joelhos)
- amamentar dá um caloooooor!
- bebês regurgitam várias vezes e nem se incomodam (na roupa deles, na dos outros)
- apesar de pequenos, sujam uma quantidade enorme de roupa
- existem choros inexplicáveis (o tal “purple period” ou melancolia de bebê)
- como diz minha prima, tem cocô que vai até o pescoço!
- bebês soluçam bastante e não se estressam com isso, podem até pegar no sono soluçando
- também espirram várias vezes
- é preciso cortar as unhas das mãos a cada 3 dias e o jeito mais fácil é com o bebê dormindo (as do pé crescem beeeeeem mais devagar)
- existe caspa de bebê, conjuntivite de bebê, espinha de bebê, brotoeja de bebê…
- o leite materno tem diversas utilidades (inclusive limpar lente de olho)…
- 20 minutos fazendo shhhhhhhh e dando tapinha nas costas to bebê é pouco quando comparado a 3 horas tentando fazer o bebê dormir
- adoro receber visitas!
- nos primeiros meses, a maioria das mães leva o bebê para sua cama, dorme no quarto do bebê ou dorme com o bebê na sala
- dar banho geralmente é tarefa do maridon
- quem inventou a lei da obrigatoriedade do bebê conforto no carro não tem filho
- é mais cansativo que eu imaginava
- e muuuuuito mais gostoso também!

Recomendo!

Tenho Câncer e Um Berço

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Gabriella. 31 semanas (01/dez/2012). Junto com uma pesada caixa de papelão chegou em casa um fino envelope. Na caixa, o que será um berço. No envelope, um band-aid de silicone [...]

Gabriella. 31 semanas (01/dez/2012).

Junto com uma pesada caixa de papelão chegou em casa um fino envelope.

Na caixa, o que será um berço. No envelope, um band-aid de silicone que cobre onde uma vez havia uma tireóide.

O berço é da bebê sapo que transformou um útero em castelo. A tireóide alojava um carcinoma papilífero grau VI. Diagnóstico. O procedimento: tireoidectomia total. A dúvida: quando? Assunto controverso entre a Academia, que dividiu em dois times os quatro cirurgiões e dois obstetras consultados. A decisão: 100% minha. Ah, tumorzinho, se fosses maior que teus irrisórios 0.9 x 0.8 x 0.6cm, tão mais fácil tornarias minha decisão. Cada médico levantava uma dúvida e expunha opiniões e fatos. Eu queria números, estatísticas, porcentagens. Em vão. Modelos de análises de risco esperavam em branco por dados inexistentes. A decisão seria meramente emocional. Intuitiva. Se o tumor aumentar, se virar metástase, se você não fizer depois que o bebê nascer, se a empresa cancelar o convênio, se a anestesia geral afetar o bebê, se a cirurgia tiver alguma complicação, se eu morrer, se o bebê não resistir. Deus, por que me deste um cobertor tão grande?

Conversa com sua filhinha, dizia minha mãe. Explica que você vai fazer uma cirurgia e vai dormir por algumas horas. Pede para ela ficar tranqüila. Fala para ela não se preocupar e dormir um pouquinho, que vai passar logo. Avisa que é para o bem de vocês duas. Alguém me ensina a fazer isso sem chorar?

O coração espremia meus sentimentos e enchia de lágrimas o lençol do hospital. Luz verde, salinha iluminada, serenidade, harmonia, luz verde, luz verde, luz verde…

Explico.

Nos fundos de uma casa comprida com um corredor estreito na Vila Mariana, tem uma salinha pequena onde transborda energia…… é o grupo Noel, Centro Espírita. Nas manhãs de sábado tenho sido carinhosamente recebida por um seleto grupo que irradia luz verde em minha tireóide. Ao me despedir após a última sessão, um lembrete “quando no hospital, pense em nós e na salinha dos fundos”.

Cada lâmpada no teto aumentava o medo sobre o incerto. O objetivo era avisar todas aquelas pessoinhas de toca na cabeça que havia um bebê na minha barriga e que se algo porventura não viesse a ocorrer como planejado, que a prioridade não fosse eu. Lutava contra o pré-anestésico para ter a certeza que o recado seria dado. Medo, ansiedade, insegurança… luz verde… Um médico animado se apresentou. Algumas pessoas da equipe fizeram perguntas…. mas meu mundo só se acalmou ao ver o cirurgião com seu sorriso acolhedor dizer que se atrasou pois estava operando uma criança. Completou dizendo que iria cuidar muito bem das outras duas que o estavam esperando. Busquei refúgio na salinha iluminada enquanto me entregava às drogas que já não me deixavam retirar as mãos do ventre…


E o bebê? Fazia força, mas a voz não saía… e o bebê? Ouvia baixinho e torcia para que me ouvissem também. Está bem, disse um. Nos vemos em alguns meses no parto, despediu-se outra. Alívio. Alegria. Gratidão. Um mundo de emoções misturava-se com o bipe das máquinas e equipamentos e o vai-e-vem de funcionários. Tira a sonda, esforçava-me novamente. Ainda não temos autorização. Tira a sonda. Doutor, a Erika está incomodada com a sonda, posso retirá-la?

Pelamordedeus, tinham me falado que a recuperação da anestesia geral seria difícil, mas caraca – dá para tirar essa p**ra desse fiozionho de dentro da minha uretra que eu não to agüentando!?!!!! E pensar que colocaram uma sonda de urina no meu avô, enquanto consciente. Afe Maria, deve ter doído demais. Alguém arranca esse negócio se não eu mesma vou tirar?? Tem alguém aí??

Obrigada Doutor, vou retirá-la.


Obrigada Doutor. De coração.

14 de fevereiro de 2013 – Boa Hora

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Boa hora. Talvez a expressão mais honesta e pura que exista. Com certeza, minha favorita nos últimos meses. Ao ouvi-la, um sorriso involuntário iluminava meu rosto e o pensamento transcendia [...]

Boa hora. Talvez a expressão mais honesta e pura que exista. Com certeza, minha favorita nos últimos meses. Ao ouvi-la, um sorriso involuntário iluminava meu rosto e o pensamento transcendia espaço e tempo por alguns segundos. Que Deus lhe dê uma boa hora. Existe desejo mais puro?
A minha hora, a nossa hora foi abençoada – e todos os segundos foram perfeitamente compondo a hora mais feliz da minha vida. Foi assim:

“Caraca, só aquela vaca da Giselle Bündchen que não sente dor, pelamordedeus”- foi o primeiro pensamento que invadiu minha mente ao ser despertada por uma contração às 6h20 da manhã de uma já ensolarada quinta-feira.

“Ah não, já preciso fazer xixi de novo – não agüento mais ir ao banheiro no meio da noite”, foi o segundo.

Desta vez, porém, senti o liquido saindo antes mesmo de eu me levantar… e corri para a privada. “Será?” – era tudo o que eu pensava enquanto ouvia o barulhinho de água. Levantei e olhei para dentro do trono: e agora? Será que isso é xixi? Ou estourou a bolsa? Sem ter certeza absoluta, resolvi voltar para a cama e dormir um pouco mais… dei 3 passos e senti mais liquido saindo de dentro de mim – corri para a privada! É a bolsa! Uhuuuuuuuuuuuuuuuuu! Vou finalmente sentir uma contração de verdade! Uma mescla de sentimentos tomou conta do meu coração – felicidade, surpresa, alívio, e agora? Reparei que conforme eu me mexia, saía mais liquido e dei uma rebolada para fazer um teste… levantei e olhei de novo: lá estava ele, o primeiro sinal de que minha bebê estava pronta para iniciar seu ritual de passagem – um liquido amarelado, fosco, com pedacinhos branco – a bolsa tinha rompido! Não dei descarga e tirei uma foto, caso a médica quisesse ver. Queria ligar para minha irmã e para a Dra. Betina, mas resolvi esperar um pouco – afinal era muito cedo. Reparei que as contrações estava vindo com certa freqüência e comecei a anotar os minutos, 12-14 entre cada. Corri para ver meus livros de preparação para o parto – quando mesmo devo ir ao hospital?  

As 7h20 não me contive e avisei minha irmã, que recebeu a notícia com enorme felicidade e – se bem a conheço – um pouco de ansiedade. Disse que ia arrumar as coisas e estaria a caminho de São Paulo em breve. Esperei alguns minutos para não acordar a médica e por volta das 8h00 dei a notícia à Betina – que também respirou com alivio – a pequena chegaria por conta própria, na hora dela, sem acupuntura, sem descolamento de membrana, sem dores e inconvenientes adicionais. Petit Gabi, a caminho.

As horas tornaram-se minutos e nada fiz além de anotar as contrações a manhã inteira… está chegando a hora, logo mais minha pequena estará aqui, que felicidade… puts, como dói… Quando me dei conta, já era cerca de 13hs e minha irmã, meu cunhado e minha sobrinha Lis estavam chegando. Foi aí que me deu conta que ficaria com vergonha de ter meu cunhado na sala enquanto eu gemia de dor… Minha irmã durona, nem titubeou, ele vai ficar aí e pronto. Ok, ok, tudo bem… Durona, metódica e super organizada – chegou com dois cronômetros, aplicativo do iPad que mede as contrações, mochila do hospital com mais que o imaginável, de incenso a energético. Pelo telefone, a médica me acompanhava “bom, pelo visto ainda vai demorar, você está conseguindo conversar normalmente”…. Lógico, pensava eu, sou uma mulher forte, já tirei as amígdalas e a tireóide, aposto que o parto nem vai doer nada… …doce ilusão.


Enquanto Lê e Lis brincavam no tapete da sala, eu e Naninha fomos dar uma volta pelo prédio e um pulinho na farmácia para acelerar as contrações… e confesso que esse negócio de andar no pré-parto realmente funciona… Por volta das 18hs, Betina chegou em casa, sorridente e tranqüila, como sempre. Calmamente me examinou e para tristeza de todos, preferiu não dizer quantos centímetros de dilatação eu tinha, mas deixou claro que ia demorar. O sol deu lugar a uma tempestade que trouxe as águas de março em fevereiro e inundou nossa querida cidade. Enquanto a família Le Lis Drica foi jantar e trazer algumas guloseimas do mercado para agüentarmos a madrugada adentro, eu me deitei no quarto e Betina deu uma cochilada no sofá. Assim que levantei, recebi uma massagem relaxadora no corpo inteiro e aprendi a respiração que deveria fazer durante as contrações. Aaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh, de dentro e de baixo para fora e para cima, com força. Aaaaaaaaaahhhhhhhhhh, treinava eu. Foi aí que a Betina revelou o segredo, estava com apenas 3cm de dilatação – ou seja, o negócio ia ser loooooooooooooooongo.

Assim que a family retornou do mercado e me serviu uma mini pizza, por volta das 21hs, a Betina saiu para jantar – quando voltasse iríamos para o hospital, a bebê deveria chegar na madrugada de sexta. Avisei minha mãe e meu pai e em menos de 15 minutos a mini pizza fazia seu trajeto ao contrário – vomitei (PS: o organismo é fantástico, vai limpando tudo – eu tinha feito cocô 3 vezes de manhã).

Aaaaaaaaaaahhhhhhh…. eu vestia uma saia e a parte de cima de um biquíni para facilitar a massagem nas costas e a bolsa de água quente que meu cunhado e minha irmã colocavam na minha lombar durante as queridas contrações… O perfume do incenso se misturava ao cheiro do estoque de fraldas que decorava a sala e o choro da pequena Lis se mesclava às notas da música clássica que nos embalava. “caraaaaaaaaaaaaaalho, não vou agüentar, pelamordedeus, se tivesse no hospital já teria pedido uma anestesia…. não, já teria feito uma cesárea” pensava eu, mas tudo o que eu conseguia falar era aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhh…

Por volta das 22hs a posição mais confortável que eu encontrei foi sentada na privada, assim aproveitava e fazia xixi e podia me apoiar na parede da frente durante as contrações…. e a cada grito meu, minha sobrinha respondia ainda mais alto… e às 23hs o resto da mini pizza e o suco de uva voltaram à tona entre uma contração e outra – nem me levantei e vomitei no bidê ao lado. Meu cunhado ligou para a médica, disse que ia entrar no banho rapidinho e já estaria de volta. 

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, eu não vou aguentaaaaaaaaaar. Buáaaaaaaaaaaaaaa respondia a Lis.
E imaginava o quarto delivery no hospital São Luiz, um lugar espaçoso e amplo, com iluminação especial, som ambiente, banheira de parto, um lugar onde os partos não doem…. meu paraíso… aaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh…. buuuuaaaaaaaaaaaaaaaaa….

Para acalmar um pouco a Lis, Leandro a levou para dar uma volta no prédio e deixou minha irmã me doulando. Ela sugeriu que eu entrasse no chuveiro para tentar aliviar um pouco a dor – e confesso que não aliviou porra nenhuma, só aumentou minha vontade de fazer cocô… “é seu bebê que está chegando, Kika” foi a resposta. “Como assim? Não tá na hora!”. Você consegue colocar a mão lá? Vê se você sente alguma coisa? Nãaaaaaaaaaaaao, não consigo…. Vamos fazer um teste, senta na privada e na próxima contração ao invés de fazer o ahhhhhhh, faz a respiração para dentro, como se fosse fazer cocô mesmo. Tá, ok. Hmmmmmmmmmmmmmmmmmm – agora põe a mão lá e vê se você sente alguma coisa…  aaahhhhh, tem alguma coisa pressionando minha pele…. é a bebê! Mas não pode ser, dizia eu, ainda não esta aberto, não tem dilatação, não tem por onde sair… Ah, tem sim – pode escolher, você quer ir para a sala ou para o quarto??! Pensei no tapete branquinho da sala, vamos para o quarto! Fiquei de joelho na cama e gritava mais alto a cada contração…
Alô, Betina, o bebê da minha irmã tá chegando
-        Eu estou no subsolo, não consigo chamar o elevador
-        Ah, sobe um andar de escada, no subsolo ele fica bloqueado
-        Kika, faz força na contração….
-        Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
-        Betina, está saindo o mucus plug, eu não lembro o nome em português, mas está saindo… Kika, é o primeiro sinal que seu bebê vai nascer!
-        O elevador está desligado! E o outro tem alguém segurando! Fala pra sua irmã não fazer força…
-        Kika, na próxima contração, faz força
-        Aaaaaaaaaajjjjjjjjjjjjjjjjjjasdfasdfasdfasdfasdfasdfasdfasdfasf
-        Isso, saiu a cabecinha, na próxima faz de novo e vai sair o corpo, tipo assim pluft…
-        Espero que não me rasgue, foi a única coisa que pensei! E aaajjjjjjjjjjjjafffffffffffffffffff
-        Pronto! Nasceu!!!!!!!
-        Chora, chora, chora, chora….
-        Buuuaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa
Ufa.
e o tempo parou. Os minutos transformaram-se em horas e o mundo passava em câmera lenta dentro de um apto na Grande São Paulo.
Enquanto eu pulava o cordão umbilical para me sentar, a médica entrava no apartamento e minha irmã segurava a pequena… quer? Quer segurar?
-        Calma, calma, deixa eu me sentar…
E em poucos segundos Gabizinha estava nas minhas mãos, tentando sugar um peito que eu nem sabia direito como lhe oferecer….
“Deixa eu dar uma examinada para ver como está”
“Cortou? Rasgou?”
“Ah, tudo bem, só uma raspadinha na lateral, mas em 3 dias fica tudo ótimo”
Ufa.
“Que horas nasceu?” – perguntava meu cunhado ao entrar no quarto…
“Faz um pouco de força para sair a placenta”
“Deixa eu ver?”
E chorei ao ver o pedacinho vivo de mim que cuidou tão bem da minha petit e a manteve abrigada e alimentada por 41 semanas e 5 dias…
Você tem fio dental para amarrar o cordão?
“Segura aqui, sente o cordão pulsar˜
Não sentia nada, tremia, o mundo ainda caminhava devagar…
“Quer cortar?”
“Chama minha irmã”
“Nossa, que duro”
“Toma um banho devagar, mas não lava a cabeça”
“Você tem pano de chão? E outro lençol?”
“Tem um balde para eu lavar a bebê?”
“Ixe, esse absorvente pós parto é muito pequeno, vou pegar uma fraldinha dela para você”
“Você prefere que a gente fique aqui com você essa noite? Ou a médica?”
E quando eu saí do banho, a cama estava arrumada, os restos de mini pizza e suco de uva tinham sumido e Gabizinha dormia na minha cama, vestida com uma fraldinha, o cabelo cheio de pedacinhos de um sebo branco, o cheiro, ahhhh, o cheiro embriagava o ambiente…. cheiro de bebê tem cheiro de placenta, da minha placenta, do meu bebê.
E fiquei ali, a noite inteira, deitada ao lado da petit, observando cada pedacinho, cada detalhe… e ainda hoje quando olho para ela, sinto um aperto no peito e meus olhos se enchem de lágrimas.

23h48. Esta foi nossa abençoada hora.

…nossa senha, para o resto da vida

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De dentro de mim enrodilhadoPor meu olhar contemplas o universo Vem minha criança, não tenhas medo Sai dessa concha de sangue e carne Onde te preparas para o mistério da [...]

De dentro de mim enrodilhado
Por meu olhar contemplas o universo

Vem minha criança, não tenhas medo

Sai dessa concha de sangue e carne
Onde te preparas para o mistério da vida
Estou a tua espera.
Vem, quero te falar das marés e da lua cheia
Quero te contar dos homens e de suas invenções.
Conheço cantigas de ninar com as quais te embalarei,
Para que teu sono seja tranqüilo
Sei histórias de fadas e heróis e vou narrá-las, uma por uma,
Para que seja alegre teu despertar e divertido seu dia.
Ouve: esse rumor surdo e contínuo que te faz companhia
Aí dentro nessa noite de tantas luas – é meu coração batendo.
Ele continuará pulsando por ti quando já tiveres saído e me
Olhares nos olhos.
Por esse som me reconhecerás, aqui fora,
Quando estiveres nos meus braços e eu te aconchegar no meu peito
Esta será nossa senha, para o resto da vida.
Toda vez que a tristeza escurecer o seu semblante
Sempre que a aflição fizer teu coração bater mais rápido,
Corre para mim e encosta a cabeça no meu regaço.
Aí ouvirás de novo esta mensagem
Estarei te esperando como hoje
                                                        Lídia Aratangy

à Gabriella, com todo meu amor

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Desejo primeiro que você ame, E que amando, também seja amado. E que se não for, seja breve em esquecer. E que esquecendo, não guarde mágoa. Desejo, pois, que não [...]

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar “.

(Efêmeras) Noites de Mamãe e Bebê…

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Leio, releio e leio mais uma vez. E meus olhos se enchem de lágrimas, sempre. Por Claudia Rodrigues – Jornalista e Terapeuta Somática. “Querida mamãe, Esta noite acordei estranhando o [...]

Leio, releio e leio mais uma vez. E meus olhos se enchem de lágrimas, sempre.
“Querida mamãe, Esta noite acordei estranhando o silêncio. Não havia barulho algum e pensei que o mundo tinha até acabado e você esquecido de mim. Coloquei a boca no trombone e você apareceu. Ainda bem.Fiquei tão feliz no calor do seu peito que acabei pegando no sono antes de mamar tudo o que precisava. Quando percebi que você ia me colocar no berço, chorei de novo. Mas não tente negar, você estava com pressa para ir dormir outra vez. Você me deu de mamar novamente, assim, meio apressadinha e depois resolveu trocar a minha fralda. Estava tudo calmo, um silêncio, nós dois juntinhos, tão legal que eu perdi o sono. Você até que foi compreensiva, mas começou a bocejar um pouco e resolveu me fazer dormir. Eu não queria dormir. Talvez eu precisasse de mais dez minutos ou meia hora, mas você estava mesmo decidida a dormir. Foi ficando bem nervosa e até chamou o papai e todos fomos ficando muito irritados. No final das contas, acordei a casa inteira cinco vezes. Pela manhã, nossa família estava com cara de quem saiu do baile. Acho que estraguei tudo. Imagina, você chegou a dizer para o papai que eu estou com problema de sono. Eu não! Você é que vem me dar de mamar com pressa e daí eu sinto que você não quer mais ficar comigo. Os adultos têm hora certa para tudo, mas eu ainda não entendi essas coisas de relógio e tarefas estafantes que vocês precisam fazer. Quando meu corpo está com o seu, quero ficar do seu lado sem me separar nunquinha. Do alto dos meus três meses, ainda não descobri direito que você é uma pessoa e que eu sou outra. Um dia eu vou sair por aí, vou telefonar e posso deixá-la doida para saber o que ando fazendo e, então, você vai entender como me sinto agora. Mas não precisamos dessa guerra, mamãe. Até lá já podemos nos entender, inclusive pelas palavras. Sinto a angústia da separação, pois acabei de passar por essa experiência. Você também, mas vive tudo isso como uma adulta consciente. Eu ainda estou vivendo no inconsciente. Eu não sei nada, tudo é tão novo para mim aqui fora. Mas eu tenho absoluta certeza de que eu vou aprender tudinho o que você me ensinar por seus sentimentos em relação a mim. Mamãe, você quer um conselho de bebê? Quando eu chorar à noite, não salta logo para o meu quarto desesperada como se o mundo fosse acabar. Espere um pouco, respire profundamente, ouça o meu choro até que ele atinja o seu coração. Sinta seu tempo, realmente acorde e venha me pegar. Me abrace devagar, não acenda a luz, fale bem baixinho e me dê o seu peito para eu mamar. Depois que eu arrotar, mais um pouco só de paciência pois, nós bebês, somos sensíveis aos sentimentos dos adultos. Se eu sentir que você está com pressa, sou capaz de armar o maior barraco, mas se você esperar o meu segundo suspiro, quando meus olhos ficarem bem fechados, minhas mãos e pernas ficarem bem molenguinhas, aí sim, pode me colocar de volta no berço que eu não acordo antes de sentir fome outra vez. À medida que você desenvolver sua paciência, mamãe, eu estarei desenvolvendo a minha tranqüilidade e nós não teremos mais noites infernais. Apenas noites de mamãe e bebê, que um dia passam, como tudo na vida.”

E a Lis chega ao mundo

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No ano passado virei tia! Dizem que a vida de alguém muda ao nascer de um sobrinho…  Abaixo segue o lindo relato do seu parto, escrito pela minha querida irmã [...]

No ano passado virei tia! Dizem que a vida de alguém muda ao nascer de um sobrinho… 


Abaixo segue o lindo relato do seu parto, escrito pela minha querida irmã Adriana Tabacniks – inspiração à futuras mães e tias:

“Foi no final do mês de outubro de 2011, duas semanas antes do meu casamento com o Leandro, que tudo começou. Eu andava me sentindo meio estranha, com mal estar, ânsia de vômito, enjôo com comidas e estava achando que eu havia pego um rotavírus… Foi então que o Le sugeriu: será que você não está grávida? Nós tínhamos em casa um teste de farmácia e logo fui ao banheiro conferir. Acho que no meio da excitação, fiz tudo tão rápido e sem atenção que achei que o exame havia dado negativo. O Le, minucioso como sempre, me perguntou os detalhes do exame e eu acabei falando: ahhh, deu uma tirinha rosa muito fraca e eu já joguei tudo no lixo. Ele então decidiu que no dia seguinte nós iríamos à cidade comprar outro exame e que ele mesmo iria fazer o teste. E assim foi e veio o positivo.

Como moramos em um sítio no meio do mato não é tão simples fazer exames laboratoriais ou ir a um médico e como em alguns dias nós tínhamos um compromisso em São Paulo, esperamos a data e aproveitamos a viagem para fazer um exame de sangue para comprovar a gravidez. E foi no dia 8 de novembro que estava confirmado: eu estava grávida.

Foi então que passei a pensar em como dar a luz, comecei a fazer exames pelo SUS mas logo fiquei decepcionada com o sistema público e passei a fazer tudo por conta própria e a pesquisar as nossas opções para um parto humanizado. Aos poucos fomos entrando num mundo a parte, de doulas, obstetras e parteiras e acabamos conhecendo a Ana Cris, parteira contemporânea, que ganhou nossa confiança logo em nosso primeiro encontro. Como estávamos querendo ter um parto domiciliar e moramos no meio do mato na cidade de Joanópolis, começamos a procurar um local para alugar em São Paulo para receber nosso bebe. Achamos melhor fazer isso pois estaríamos próximos a um hospital no caso de uma emergência.

Fizemos todo nosso pré-natal com a Ana Cris e ao conhecer a Maira Duarte, que nos conquistou, escolhemos ela para ser a nossa doula. Desde o segundo mês da gravidez nos disseram que a data provável para o parto era o dia 17 de junho de 2012, mais ou menos duas semanas, e aos poucos fomos nos preparando pois teríamos que passar um tempo fora de casa esperando o momento de dar a luz. E foi assim, que no dia 1o de junho chegamos em São Paulo para ficar no apto da Tati, irmã de uma querida amiga, que nos alugou seu cantinho no centro da cidade para receber nossa pequena Lis.

Fomos toda a família: eu, o Le, o gato Tom e as cachorrinhas Lolita, Rosinha e Amy. Nos instalamos e ficamos na espera. No início foi tranquilo, mas com o tempo comecei a ficar um pouco ansiosa e acabei tendo que desligar o celular pois a família e amigos não paravam de ligar ansiosos com a demora do parto. Passou o dia 17, passaram mais duas semanas e nada. Alguns dias, ou noites, eu tinha mais contrações, mais fortes e freqüentes, mas nada que me fizesse achar que o trabalho de parto estivesse próximo.

No dia 2 de julho eu acordei com uma pequena mancha na calcinha, era o tampão que estava começando a querer sair. Fiquei tão feliz! Na hora que vi já pensei que não faltaria mais tanto tempo para o nascimento da minha filha. :) Naquele mesmo dia, uma segunda-feira, eu tinha uma consulta as 14 horas com a nossa parteira Ana Cris. No exame interno ela conferiu apenas 2,5 cm de dilatação, mas fez também um deslocamento da membrana para tentar acelerar o trabalho de parto pois eu já estava com 42 semanas e 1 dia de gestação, o que é considerado além do que poderíamos esperar. Quando saímos do consultório já passei a sentir contrações mais fortes e que ficaram bem mais frequentes ao anoitecer. Eu estava tão feliz que aquele momento estava chegando que as dores não me incomodaram, apesar de que nesta noite já não consegui dormir por conta da frequência das contrações.

Na manhã seguinte, por volta das 6 horas, as contrações frequentes pararam e voltaram ao ritmo de poucas por hora. Foi uma decepção, eu não imaginava que poderiam parar e estava esperançosa de ver minha pequena ainda naquele dia. Mas fomos em frente e ao meio dia tínhamos um ultra-som marcado com a Dr. Deborah para ver se estava tudo bem com a bebe. Na consulta ela disse que parecia que eu já estava mesmo no começo de um trabalho de parto e que a Lis estava bem. Eu tinha apenas 3 cm de dilatação e ela fez mais um descolamento da membrana como a Ana nos havia instruído, e dessa vez doeu um pouco. Ela nos deu também umas moxas , para que a gente pudesse tentar induzir o parto através da acupuntura caso fosse necessário.

Por volta das 15:30 da tarde, no início de uma linda lua cheia, as contrações vieram com tudo. Já começaram fortes e freqüentes, eu já gritava com dores e pedia ao Le que me fizesse massagem nas costas. Medimos o ritmo e ligamos para a Ana Cris com a boa notícia, 14 por hora. Neste momento percebi que as dores eram intesas demais e que seria melhor chamar também a doula, para nos ajudar com a dor e com tudo mais que fosse necessário.

Nossa doula, a Maira Duarte, chegou logo, por volta das 17 horas, e passou a me assistir no momento das contrações. Eu gritava para estravasar a dor, mas conseguia relaxar nos 4 ou 5 minutos que haviam entre as contrações. Por volta das 18 horas chegou a parteira e um pouco depois a Dr. Otília, a pediatra. Neste momento a Ana fez um exame de toque e mediu apenas 3 cm de dilatação, e na hora eu pensei: nossa! como isso ai ta indo devagar!… Eu andava, gemia, rebolava, gemia e ia agüentando, ainda, a minha onda, mas parecia que as contrações perdiam freqüência cada vez que alguém chegava no apartamento. Por volta das 21 horas, as meninas saíram para jantar e eu e o Le ficamos a sós e aproveitamos para dar uma namoradinha na varanda. Namoramos um pouco e curtimos também nossa cachorrinhas que estavam presas para fora e eufóricas com toda a movimentação, e neste momento, resolvemos usar a moxa para ver se conseguíamos acelerar o trabalho que estava um pouco lento. Colocamos ela no ponto certo na canela como a Dra. Deborah nos havia instruído e acendemos. Nossa! Alguns segundos após sentir uma pequena queimadinha na perna veio um baita contração, a mais forte até então, e ai elas voltaram a ficar freqüentes e não pararam mais.

A partir dai foi um jogo de paciência e dor, muita dor. Eu gemia e gritava, sentava na bola, agarrava a bola, rebolava e gritava. Entrei na banheira para tentar amenizar as dores e fiquei lá por um bom tempo. No início foi gostoso mas com o tempo passei a sentir também muita dor nas costas. Diziam para eu relaxar, mas a dor era tanta que eu acabava ficando tensa e contraía o corpo, o que eu acho que não ajudou muito na evolução do trabalho como um todo, mas eu também não conseguia fazer muito diferente. Em todo este tempo a Maira me ajudava, fazia massagem, me dava uns chá para dar energia, colocava umas músicas gostosas, acendia velas, tirava fotos e cuidava de tudo. Por volta das 23 hora a Ana Cris mediu novamente a dilatação e de início não queria me dizer com quanto estava mas acabou cedendo e veio a notícia: apenas 4 cm. Naquele momento eu pirei total, não me importava que diziam que o colo estava mais fino e posterior, ou que eu estava indo bem, pelas minhas contas se tinham sido 7 horas de dor para dilatar apenas 1 cm, eu tinha muita, mas muita dor ainda pela frente!

Foi neste momento que eu achei que não iria agüentar, que comecei a pensar em ir para um hospital. Eu queria anestesia, queria drogas, remédios, qualquer coisas que fizesse aquilo passar. Eu cheguei a pensar que podiam até mesmo abrir a minha barriga… hehe, estava mesmo desesperada. Eu berrava, xingava, gemia, e rebolava na banheira. Em algum momento a Maira me ofereceu um Buscopan e com esperança de que aquilo ajudasse a diminuir a dor aceitei na hora. Tomei o remédio, e não creio que ajudou com as dores, mas de alguma forma as contrações se espaçaram um pouco e eu consegui relaxar, e talvez até mesmo cochilar, por alguns minutos entre as contrações.

Um pouco mais descansada, pouco tempo depois, voltamos ao ritmo do trabalho de parto. Neste momento eu já estava um pouco mais conformada e deixei que as dores tomassem conta do meu corpo. Eu ficava mentalizando que aquilo tudo ia passar e a cada contração eu ansiava pelo intervalo que me deixasse respirar e acalmar. Com meu corpo solto, a vontade de parir, a mentalização de que minha bebe estava descendo e iria sair e o rebolado, o trabalho de parto passou a evoluir de outra forma. Eu estava conformada e decidida a ajudar a dilatação, mesmo sem saber exatamente como.

Bastante tempo depois, após muitos berros, muita dor, muita raiva, muita massagem e muito rebolado, por volta das 3:30 da manhã a Ana Cris veio para medir novamente a dilatação. E ai sim, finalmente uma boa noticia: 7 cm! Uhuuu! Neste momento com o intuito de me animar ela falou para eu sentir a cabeça da minha filha ainda dentro de mim. Segui seus dedos pela minha vagina e lá estava ela! Grande e protegida ainda pela saco amniótico, mas estava bem baixa e eu pude acariciar um tanto da sua cabecinha. Foi incrível e neste momento tudo mudou, a partir daí eu me entreguei inteira.

As dores eram cada vez mais fortes e o espaçamento entre elas diminuía ao ponto de parecerem inexistentes em alguns momentos, mas nada mais importava. Eu berrava alto, perdia a voz, mordia o travesseiro e rebolava até ficar exausta. Eu mentalizava minha menina descendo, o útero abrindo, e fazia força, empurrava minha bebe para baixo com todo o meu corpo, com uma percepção corporal que eu nunca nem imaginava possível. Daí em diante o tempo acelerou, ficamos eu e a Maira no quarto, entre berros e massagens por quase mais uma hora mas que se foi rapidamente, até que senti um líquido escorrendo e molhando minha calcinha. Chamamos a Ana Cris que então fez mais um exame de toque e disse que apenas a bolsa externa havia rompido e que eu já estava com 9 cm de dilatação. Perguntei se eu já podia fazer força para a Lis sair e ela me disse que ainda não, que ainda faltava um pouco e que eu saberia quando fosse o momento, mas que com certeza eu seria mãe em breve.

Eu estava empolgada e decidida, pensei que em mais algumas contrações minha filha chegaria e fiz toda a força que eu tinha dentro de mim, e mentalizei a chegada da Lis, e foi assim, algumas contrações e poucos minutos depois eu senti que era a hora e avisei: é agora. Chamaram o Le que estava na sala ansioso e as meninas prepararam tudo para o nascimento. A Maira perguntou se eu queria ir para a banheira que ela havia preparado, pois desde sempre minha vontade era ter a Lis na água, mas no momento não quis pois estava me sentindo bem de quatro ali na cama.

Nesta hora pensei nos conselhos de uma amiga minha que a pouco tempo tinha dado a luz, que me disse para assoprar para dentro no momento da contração na hora que eu tivesse que fazer força para a Lis nascer. E assim eu fiz. Ao sentir a contração fiz toda a força e senti sua cabecinha descendo e alargando meu períneo. Senti que iria doer, que sua cabeça era grande, e quis ir com mais calma para tentar evitar uma laceração. Não sei como, mas puxei sua cabeça de volta para dentro e pensei: na próxima eu vou. Assim que veio uma outra contração eu me concentrei e empurrando com muita força, mas com calma, a cabeça da Lis saiu de uma só vez e rapidamente. Eu sentia que ela estava parte dentro e parte fora e neste momento o Le falou: Vai Dri, eu já to segurando a cabecinha dela! Mas eu precisava ainda de mais um minuto para recuperar as energias e disse que na próxima contração iria. Foi ai que senti que a Ana Cris estava segurando e virando a Lis, e que se eu empurrasse ela iria sair todinha, e ai veio o momento. Fiz mais uma força e pluft, rapidamente ela havia nascido as 5:16 da manhã do dia 4 de julho sob uma lua cheia estupenda na cobertura de um pequeno edifício no centro de São Paulo.

Logo perguntei se eu podia segura-la e me disseram que iriam limpa-la para que a Lis não escorregasse das minhas mãos. Me passaram minha filha por debaixo das minhas perna eu a coloquei no meu colo, segurei sua mão e a fiquei namorando. Com o Leandro deitado ao nosso lado, estávamos todos juntos, completos, repletos. Beijei meu marido e agradeci sua paciência comigo, e agradeci por não ter cedido e não ter me levado a um hospital. Deitados na cama com nossa filha, pudemos sentir o cordão umbilical pulsando, ela ainda respirava e se alimentava através da placenta. Logo o cordão parou de pulsar e a Lis já respirava sozinha e foi então que o Le cortou o cordão com um bisturi. Ela foi pesada e a Dra. Otília viu que ela estava bem. Ela então mamou rapidamente e eu não queria deixa-la mais longe de mim. As 7 horas já estávamos a sós, nos três, curtindo a pequena Lis, que acabara de chegar para mudar nossas vidas para sempre. :)

Epi-No Recauchutado

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Ah, morar no Brasil me fascina. Fui recebida por um olhar desconfiado do borracheiro. – Oi, eu deixei um aparelho aí ontem – Sim, deixou – Deu para arrumar? – [...]

Ah, morar no Brasil me fascina.

Fui recebida por um olhar desconfiado do borracheiro.
- Oi, eu deixei um aparelho aí ontem
- Sim, deixou
- Deu para arrumar?
- Você não pediu para consertar?
- Sim, se desse
- Tá funcionando
- Que ótimo, muito obrigada
Sem interromper o carteado da mesa atrás dele, pediu a um amigo que pegasse o aparelho e caminhou em minha direção com um belo sorriso estampado em seu resto.
- Posso lhe pedir um favor?
- Lógico
- Eu passei ali na farmácia, mas o Toninho não soube me explicar – para que serve isto?
Em 15 segundos eu criei um script descritivo que fosse o mínimo embaraçoso possível.
- hmmmmmm…
- Quanto lhe devo?
- Nada não, valeu pela explicação, boa sorte!
Feliz, atravessei a rua e fui à farmácia comprar álcool para limpar o mais novo Epi-No recauchutado do Brasil.
- Oi, você tem álcool para ser usado como desinfetante?
Até que ficou bom, não?

- Tenho este, serve?

- Serve sim
- Posso lhe fazer uma pergunta? O borracheiro passou aqui e trouxe este aparelho para eu testar… para que serve?

Epi-No

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Hoje levei o epi-no à borracharia. Epi-no. Provável que uma recente mãe de parto normal e seu companheiro conheçam este aparelho. Demais mortais residentes no Brasil e na maioria dos [...]

Epi-no. Provável que uma recente mãe de parto normal e seu companheiro conheçam este aparelho. Demais mortais residentes no Brasil e na maioria dos países, ainda não. Explico. É um aparelho com uma bexiga de inflar e uma válvula de pressão usado para massagear e fortalecer o períneo com o objetivo de evitar a temida episiotonomia. Inventado pelos – até onde eu sabia, pouco criatvios – alemães, esta bombinha de inflar tem conquistado adeptos nas mais distantes localidades. Aqui no Brasil, ele pode ser comprado por cerca de R$ 600 em apenas um site tão pouco acesssado, que eu achei uma vez e estou procurando para divulgar o link. Contrária à recomendação de seu produtor, o costume em São Paulo tem sido alugar e realugar os epi-nos de quem os comprou. Recomenda-se o uso a partir da 34º semana de gestação e o objetivo é conseguir expelir a bexiga com um diamêtro de 30 cm. A recomendação é fazê-lo por cerca de 5 minutos todo dia. Bom exercício para desenvolvermos a paciência e a força de vontade, além de vencer barreiras como constrangimento e ensinar a medir progresso e atingir metas. Ótimo para o desenvolvimento profissional e pode ainda desenvolver o trabalho em grupo.
Para esta tarefa, algumas mulheres contam com a ajuda de seus maridos, namorados, que, imagino eu, devem superar uma boa dose de constrangimento e falta de interesse para calmamente enfiarem uma bexiga dentro de suas amadas, enchê-la de ar, segurar por alguns minutos e vê-las expelir o balão. Talvez até funcione como um brinquedinho sensual, mas tenho minhas dúvidas. Outras, como eu, aprendemos a manusear o aparelho sozinha. Para isto, podemos contar com o auxílio das terapeutas de Epi-No, profissão até então por mim considerada inexistente. Já passei por, poucos, momentos constrangedores – mas este, pelamordedeus, parecia que o ar estava pesado e as paredes do consultório se fechando a cada longo segundo que demorava minutos para passar. Terminada a consulta, respirei a brisa fresca que presenteava a cidade e liguei para minha irmã – que riu comigo do momento embaraçoso que terminara há pouco.

Conforme aprendi, perna em cima de almofada, deitada de lado, sentada na beira da cama, espelho, música, luz apagada, todo recurso é válido para a futura mamãe relaxar e enfiar a bexiga lá dentro. Eu costumava fazer o exercício, digamos assim, deitada no sofá, com um pé em cima das almofadas, assistindo novela – horário em que raramente o telefone toca – e fechava as cortinas para evitar que o novo casal do prédio ao lado  acompanhasse todos os minutos de meu dia-a-dia.  E foi assim, enquanto Morena encontrava sua mãe e Júnior no Aeroporto, que ouvi um fiuuuuuuuuuzzzz e a bexiga saiu voando como acontece em desenho animado. Era uma vez um epi-no. Alugado. Enquanto Dona Lucimar chorava de emoção eu imaginava os Reais saindo de minha conta bancária e pensava nos emails que ia enviar para as donas de Epi-No ver se encontrava algum disponível para alugar a partir do dia seguinte. Aquele rasguinho de 0,5 cm na base do aparelho me deixou triste. Será que consigo remendar o furo? Band-aid, fita crepe, super bonder, esparadrapo – eram todos os artifícios colantes que eu tinha ao meu alcance. E eis que lembrei de algo que podia salvar meu Epi-no de aluguel.

Em julho de 1994 minha família mudou-se para a Califórnia, onde morei por dois anos. Foi lá que compramos um bote de borracha, acompanhado de coletes salva-vidas laranja fosforecente. Eventualmente, depois de anos sem uso após nosso retorno ao Brasil – com a permissão de meus pais – dei o bote para uma amiga levar para sua casa de campo, na frente de uma lagoa. Aliás, imagino que ele nuna tenha sido usado. Enfim… Enquanto na terra do Tio Sam, este bote, às vezes, furava. E era com um remendo verde que meu pai calmamente o consertava. Será que ele ainda tem este material fascinante? Lembro com carinho da tarefa de procurar as bolhinhas de ar que saíam do material de borracha submerso em água… semelhante à busca feita pelos borracheiros quando levávamos os pneus furados para serem remendados. Aliás, frustrante foi minha recente descoberta que pneus não usam mais câmaras de ar – o que reduziu em larga porcentagem a quantidade de pneus furados. Porém, ainda furam. Será que ainda existem borracharias?

Sim, sim, existem – e tem duas há alguns quarteirões de casa.

****

No dia seguinte, entreguei o Epi-no a um senhor que desviava os olhos de suas cartas e me observava desconfiado. Prometeu ver o que consegueria fazer enquanto examinava o instrumento. Sem perguntas, rapidamente me despedi, pois notei que seus amigos de carteado esperavam minha saída com impaciência, e combinei que voltaria no próximo dia.